17 de abril de 2011

MINHA PERSONAGEM, MINHA COMPANHIA






Existe em mim uma aparente contradição, quanto mais escrevo mais fica difícil escrever. Remexo as páginas já escritas e para mim isto não é bom, sinto-me nua diante de todas as personagens que existem na vida real. O texto ou o poema parecem não me pertencer, tenho a sensação de que não foram pensados nem escritos por mim. Tenho um sentimento de que estou traindo minhas personagens expondo suas vidas ao julgamento popular. Mas também penso que tudo é nada, é isso: Será que não estou competindo comigo mesma? Por exemplo, estou querendo escrever sobre uma pessoa, uma vida que criei. Ela se chama Helena Cortes. Mas está difícil. Não sei como separá-la de mim. Não tem como idealizá-la diferente de mim? Acontece que Helena tem a mesma tendência minha, ler e escrever. E se ela herdou isto de mim é que não consigo estar na vida sem ler e escrever. Ainda não sei o que Helena quer da vida, mas eu também não sei o quero da minha. Descobrirei devagar, o que ela quer e o que eu quero. Só que Helena é movida à intensidade de desejos, e eu por modesta submissão. Para escrever não posso desviar minha atenção senão perco a pouca capacidade inventiva. Helena é um grito que ecoa pelo ar, eu sou o murmúrio. Helena tem um timbre de voz alto, claro, limpo, o seu falar tem o dom de contar frivolidades como se fossem realidades profundas. Eu não tenho estilo, e quanto menos tiver, mais nuas são minhas palavras. Em meu estado de solidão sinto uma imensa necessidade de contar com alguém e por isso pari Helena: quero ter alguém para conversar. Acontece que já rasguei muitas páginas tentando um diálogo com ela. Helena se faz de surda ou não tem um posicionamento sem questionar muito: Numa página tem uma opinião, em outra diz outra, ela não chega a um consenso, eu perco a paciência porque não entendo este jeito de se posicionar diante de questões fundamentais. Helena nasceu de mim, mas somos tão diferentes! Ela é luz eu sou a escuridão. Ela escreve na claridade do sol, eu,noturnamente. Tento escrever por acaso. Quero que o pensamento aconteça na frase. Não sei expressar-me por palavras, me expresso pelo silêncio. As palavras me desafiam e escrevo pobremente. Helena não, ela ama as palavras que não dão sentido ,é uma peculiaridade dela, é liberdade de ser liberta da procura do sentido da vida, do dar sentido ao que escreve. Ela não necessita ser entendida pelo leitor, ela sente-se feliz em impactar. Escreve as palavras agarradas uma à outra para que não haja espaço para a interferência dela mesma. Eu não, enquanto não ponho cada vírgula no seu lugar, não fico satisfeita. As palavras, embora eu tenha dificuldades de lidar com elas, têm que estar bem colocadas para dar sentido a mim mesma. Por isso não dou nome às coisas, sinto-as sem pensar. Helena ainda está em estado bruto e acredito que ficará sempre. Preciso falar com ela sobre esta forma de pensar e ser, mas não quero coagir a alma dela. Mas como me aproximar sem a invasão tão nociva à convivência? Como sussurrar se ela gosta é do grito que ecoa para o longe? Será que terei que adaptar ao jeito tão “chão” dela viver a vida? Será que os papéis serão invertidos, eu a personagem , ela o ser criador da criatura? Não, eu a coloquei no mundo para que os leitores conhecessem o jeito dela lidar com a vida e com seus mundos! Helena foi minha até que perdi as forças para direcioná-la, me perdi dela nas montanhas de papéis rasgados e nos inúmeros diálogos escritos neles. Deixei-a ir para os desencontros e os encontros. Eu fico aqui sem explicações, na penumbra… Eu só presto atenção, mas no fundo não quero saber. Esqueço ou não quero saber nem de mim mesma. Esqueço o passado, esqueço o agora. Futuro? é o amanhã. Sou assim, sou nudez, não penso nem no instante porque tenho receio que ele vá embora. Nasci, estou no mundo, mas não quero que ninguém precise de mim, não sei ajudar, também não sei precisar. Mas esta não sou eu é Helena! Ela habita agora em mim, eu tão insegura, ela mais forte que eu. Helena me assassinou! Meu corpo está aqui e minha alma? Pensando bem, será que eu matei a mim mesma para que eu pudesse ser Helena? Mas se Helena está em mim, onde eu estou? Helena não aceitaria me ser. Possivelmente…

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