7 de outubro de 2009

ARMSTRONG, Bruno .M. Lima. A Bíblia, uma biografia. São Paulo : Bruno Matheus de Lima , 2009.
Introdução


Os seres humanos são criaturas que procuram pelo sentido. A menos que encontremos alguma referência ou sentido em nossas vidas, caímos muito facilmente em desespero.

A linguagem desempenha um papel importante em nossa busca. Não só é um meio vital de comunicação, como nos ajuda a expressar e elucidar a turbulência incoerente de nosso mundo interior. Usamos palavras quando queremos fazer alguma coisa acontecer fora de nós mesmos: damos uma ordem ou fazemos um pedido e, de uma maneira ou de outra, tudo à nossa volta muda, ainda que de modo infinitesimal. Mas quando falamos recebemos também alguma coisa de volta: o simples ato de pôr uma idéia em palavras pode lhe dar um brilho e um encanto que ela não tinha antes. A linguagem é misteriosa. Quando uma palavra é dita, o etéreo é feito carne; a fala requer encarnação – respiração, controle muscular, língua e dentes. A linguagem é um código complexo, regido por leis profundas que se combinam para formar um sistema coerente imperceptível para o falante, a menos que ele seja um lingüista qualificado. Mas a linguagem tem uma inadequação inerente. Há sempre algo que fica não dito; algo que permanece inexprimível. Nossa fala nos torna conscientes da transcendência que caracteriza a experiência humana.
Tudo isso afetou a maneira como lemos a Bíblia, que tanto para os judeus como os cristãos é a Palavra de Deus. As Escrituras foram um elemento importante no empreendimento religioso. Em quase todas as principais tradições religiosas, as pessoas consideram certos textos sagrados ontologicamente diferentes de outros documentos. Elas investiram esses Escritos com o peso de suas aspirações mais elevadas, esperanças mais extravagantes e medos mais profundos, e de forma misteriosa os textos lhes deram alguma coisa de volta. Leitores encontram nesses Escritos algo semelhante a uma presença que os induz a uma dimensão transcendente. Eles basearam suas vidas na escritura – prática, espiritual e moralmente. Quando seus textos contavam histórias, as pessoas em geral acreditavam que eram verdadeiras, mas até há pouco tempo a exatidão literal ou histórica nunca foi o que importava. A verdade das Escrituras não pode ser avaliada a menos que elas sejam – ritual ou eticamente – postas em prática. As escrituras budistas, por exemplo, dão aos leitores alguma informação sobre a vida do Buda, mas incluem apenas aqueles incidentes que mostram aos budistas o que devem fazer para alcançar a própria iluminação.
Hoje as Escrituras têm má reputação. Terroristas usam o Corão para justificar atrocidades, e alguns afirmam que a violência de suas Escrituras tornam os muçulmanos cronicamente agressivos. Os cristãos fazem campanha contra o ensino da teoria evolucionista porque ela contradiz a história bíblica da Criação. Judeus sustentam que, por Deus ter prometido Canaã (Israel moderno) para os descendentes de Abraão, medidas contra os palestinos são legítimas. Houve um revival das Escrituras que se intrometeu na vida pública. Oponentes secularistas da religião afirmam que as Escrituras geram violência, sectarismo e intolerância; impedem as pessoas de pensar por si mesmas e estimulam a ilusão. Se a religião prega compaixão, por que há tanto ódio nos textos sagrados? É possível ser um “crente” hoje, quando a ciência solapou tantos ensinamentos bíblicos?
Por terem as Escrituras se tornado uma questão tão explosiva, é importante ter clareza quanto ao que elas são e ao que não são. Esta biografia da Bíblia fornece algum entendimento desse fenômeno religioso. É crucial observar, por exemplo, que uma interpretação literal da Bíblia é um fenômeno recente. Até o século XIX, muito pouca gente imaginava que o primeiro capítulo do Gênesis era uma descrição factual das origens da vida. Durante séculos, judeus e cristãos apreciaram uma exegese extremamente alegórica e inventiva, insistindo que uma leitura literal da Bíblia não era possível nem desejável. Eles reescreviam a história bíblica, substituíam histórias da Bíblia por novos mitos e interpretavam o primeiro capítulo do Gênesis de maneiras surpreendentemente diversas.
As Escrituras judaicas e o Novo Testamento começaram ambos como proclamações orais, e mesmo depois que foram postos por escrito, restava muitas vezes uma tendência à palavra falada, presente também em outras tradições. Desde os tempos mais remotos, as pessoas temiam que Escrituras “escritas” estimulassem a inflexibilidade e a certeza irrealista, estridente. O conhecimento religioso não pode ser comunicado, como outras informações, pelo simples exame das páginas sagradas. Documentos tornaram-se “Escrituras” não porque eram considerados divinamente inspirados, mas porque, de início, as pessoas começaram a tratá-los de maneira diferente. Isso foi verdade em relação aos primeiros textos da Bíblia, que só se tornaram sagrados quando abordados num contexto ritual que os excluiu da vida comum e dos modos seculares de pensamento.
Judeus e cristãos tratam suas Escrituras com reverência cerimonial. O rolo da Tora é o objeto mais sagrado na sinagoga; encerrado numa capa preciosa, guardado numa “arca”, é revelado no clímax da liturgia, quando o rolo é transportado formalmente em meio à congregação, que o toca com as bordas de seu chalé de oração. Alguns judeus até dançam com o rolo, abraçando-o como a um objeto amado. Católicos também carregam a Bíblia em procissão, cobrem-na de incenso e ficam de pé quando ela é recitada, fazendo o sinal da cruz sobre a testa, os lábios e o coração. Nas comunidades protestantes, a leitura da Bíblia é o ponto alto do serviço. Mas ainda mais importantes eram as disciplinas espirituais que envolviam dieta, postura e exercícios de concentração que, desde uma época muito remota, ajudavam judeus e cristãos a examinar a Bíblia com uma disposição de espírito muito diferente. Eles eram assim capazes de ler nas entrelinhas e encontrar algo de novo, porque a Bíblia sempre significou mais do que dizia.
Desde os primórdios, a Bíblia teve uma mensagem única. Quando os editores fixaram os cânones dos testamentos tanto judaicos quanto cristãos, incluíram visões concorrentes e puseram-nas, sem comentários, lado a lado. Desde o princípio, autores bíblicos sentiram-se livres para rever os textos que haviam herdado e deram-lhes significados inteiramente diferentes. Exegetas posteriores apresentaram a bíblia como um modelo para os problemas de seu tempo. Por vezes permitiam que ela moldasse sua visão de mundo, mas podiam também alterá-la e fazê-la versar sobre condições contemporâneas. Em geral, não estavam interessados em descobrir o significado original de uma passagem bíblica. A Bíblia “provava” ser sagrada porque as pessoas descobriam continuamente novos meios de interpretá-la e julgavam que esse conjunto difícil e antigo de documentos lançava luz sobre situações que seus autores jamais poderiam ter imaginado. A revelação era um processo incessante; não ficara confinada a uma teofania distante no monte Sinai; exegetas continuavam a tornar a Palavra de Deus audível em cada geração.
Algumas das autoridades bíblicas mais importantes insistiram que a caridade deve ser o princípio norteador da exegese: qualquer interpretação que disseminasse ódio ou desdém era ilegítima. Todas as tradições religiosas do mundo afirmam que a compaixão é não apenas a virtude primordial e o teste da verdadeira religiosidade, mas que ela realmente nos introduz ao Nirvana, a Deus ou ao Dao [ou Tao]. Infelizmente, porém, a biografia da Bíblia retrata tanto os fracassos quanto os triunfos da busca religiosa. Com demasiada freqüência os autores bíblicos e seus intérpretes sucumbiram à violência, à crueldade e ao elitismo prevalente em sua sociedade.
Os seres humanos buscam o ekstasis, uma “saída” de sua experiência habitual, normal. Se já não encontram êxtase numa sinagoga, igreja ou mesquita, procuram-no na dança, música, esporte, sexo ou drogas. Quando as pessoas liam a Bíblia de maneira receptiva e intuitiva, descobriam que ela lhes dava sugestões de transcendência. Uma característica importante de uma instituição religiosa intensa é um sentimento de completude e unicidade. Ela foi chamada coincidentia oppositorum: nessa condição extática, coisas que pareciam separadas e opostas coincidem e revelam uma unidade inesperada. A história bíblica do jardim do Éden descreve essa experiência de totalidade primal: Deus e a humanidade não estavam separados, mas viviam no mesmo lugar; homens e mulheres não tinham consciência da diferença de gêneros; viviam em harmonia com os animais e o mundo natural; e não havia distinção entre bem e mal. Em tal estado, divisões são transcendidas num ekstasis distinto da natureza fragmentária e conflituosa da vida comum. As pessoas tentaram recriar essa experiência edênica [paradisíaca] em seus rituais religiosos.
Como veremos, judeus e cristãos desenvolveram um método de estudo da Bíblia que vinculava textos que não tinham conexão intrínseca alguma. Demolindo constantemente barreiras de diferença textual, eles alcançavam uma coincidência oppositorum extática, presente também em outras tradições de Escrituras. Ela é essencial, por exemplo, para a interpretação apropriada do Corão. Desde um período muito remoto, os arianos da Índia aprenderam a compreender o Brahma, a força misteriosa que mantinha os diversos elementos do mundo unidos, quando ouviam os paradoxos e enigmas dos hinos do Rigveda, que aparentemente fundiam coisas não relacionadas. Quando judeus e cristãos tentaram encontrar uma unidade em suas Escrituras paradoxais e multiformes, também eles tinham intuições da divina unicidade. A exegese foi sempre uma disciplina espiritual, não uma atividade acadêmica.
Originalmente, o povo de Israel conseguira esse ekstasis no templo de Jerusalém, que fora projetado como um réplica simbólica do Jardim do Éden. Ali eles experimentavam shalom, palavra usualmente traduzida por “paz”, mas que significa mais propriamente “totalidade”, “completude”. Quando seu templo foi destruído, eles tiveram de encontrar uma nova maneira de descobrir shalom num mundo trágico, violento. Duas vezes seu templo foi inteiramente destruído pelo fogo; a cada vez a destruição levou a um intenso período de atividade de Escritura, à medida que eles procuravam a cura e a harmonia nos documentos que se tornariam a Bíblia.

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