4 de outubro de 2009

Crítica: bebidas e ética na mídia da Copa

Crítica é internacional e também no Brasil e na Internet


Considerada internacionalmente como um grave problema de saúde pública, a associação do consumo de álcool com festas nacionais ou mundiais (como a Copa do Mundo) está sendo criticada pela Organização Mundial de Saúde e também por especialistas brasileiros, que apontam a irresponsabilidade da propaganda nacional ao descumprir sua auto-regulamentação. Mesmo os alvos de toda essa campanha publicitária também reclamam, principalmente via Internet, dos excessos cometidos pelos publicitários, bem como do desrespeito aos hinos e símbolos nacionais de vários países cometido por programas de televisão.




Propaganda da cerveja Kaiser na TV em 28/5/2002: o gol só sai se o torcedor beber a última gota...

Uma reunião técnica promovida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em Valência, Espanha, de 7 a 9/5/2002, dedicou-se a analisar a situação de mercadologia e promoção de bebidas alcoólicas para os jovens. Participaram dessa reunião 50 pessoas de 22 países, entre especialistas em mercadologia, saúde pública e comunitária, jovens dedicados à prevenção de abuso de substâncias e outros.
Aspectos do assunto discutidos nessa reunião incluíram evidências dos efeitos da propaganda de álcool sobre os jovens, práticas da indústria de álcool para promover seus produtos, o uso da Internet como instrumento de mercadologia, o impacto dos acordos de comércio globais na regulamentação da propaganda e outros.
Os técnicos reunidos nesse encontro produziram uma declaração sobre a situação global da propaganda de álcool e ações a serem tomadas. Esse documento declara que jovens, no mundo todo, vivem em ambientes caracterizados por esforços agressivos e intensos, feitos de uma forma muito bem organizada pela indústria de bebidas, para encorajar os jovens a iniciar o beber e que bebam pesadamente. No Brasil, a propaganda de álcool confirma plenamente essa afirmação, seja no uso praticamente exclusivo de modelos jovens para vender seus produtos, seja no desenvolvimento de novos produtos alcoólicos claramente voltados ao público jovem.
Ainda segundo o documento da OMS, exemplos do mundo inteiro atestaram que a indústria de álcool se vale cada vez mais de associar seus produtos com eventos esportivos, musicais e culturais, promoções baseadas na Internet e outros esforços para apresentar as bebidas alcoólicas como uma parte normal e integral das vidas e da cultura dos jovens.
E o fato é que as pesquisas apontam que os jovens tendem a responder a essa mercadologia agressiva de uma forma emocional, mudando suas crenças e expectativas em relação ao beber. Ou seja, a exposição e a apreciação que os jovens desenvolvem pelas propagandas do álcool acabam produzindo um beber mais freqüente e pesado por esse grupo populacional. A mercadologia contribui para os jovens acharem que o beber pesado é bem freqüente e essa percepção acaba criando um clima de que esse tipo de beber seja considerado normal.
O encontro da OMS também concluiu que as respostas atuais mais utilizadas mundialmente são insignificantes e inadequadas, e têm servido muito pouco para, de fato, controlar a mercadologia de bebidas alcoólicas. Em particular, a auto-regulamentação por parte dos publicitários dessa área é ineficaz. A natureza global da mercadologia requer uma resposta de nível internacional, acompanhada por esforços locais, regionais e nacionais. Dessa maneira, o documento desse encontro faz uma série de recomendações gerais à OMS, entre as quais destacam-se:

1) Tendo em conta os danos inerentes à exposição dos jovens a mercadologia do álcool e o fracasso geral da indústria do álcool na sua auto-regulamentação para limitar a mercadologia voltada aos jovens, recomenda-se que os países adotem medidas regulatórias e legislativas necessárias para assegurar que os jovens não sejam expostos às mensagens promocionais sobre o
álcool;

2) Tendo em conta que a indústria do álcool alcançou um alto nível de sofisticação no uso dos meios de comunicação para atrair e estimular os jovens a consumir bebidas alcoólicas, recomenda-se que os países aumentem a conscientização sobre essas técnicas e como desenvolver as melhores técnicas nos programas de assessoria aos meios de comunicação e contra-propaganda, assim como que estas práticas se implementem independentemente de interesses comerciais e com a participação e liderança dos próprios jovens;

3) Tendo em conta a importância das perspectivas dos jovens sobre este problema e a criatividade e conhecimento únicos que possuem sobre essa situação, recomenda-se que os jovens tenham um papel central no trabalho para liberar sua geração das ilusões criadas pela mercadologia e as promoções associadas ao álcool.






Propaganda da cerveja Brahma na TV em 30/6/2002: tartaruga torcedora é simpática, mas


passa péssimos exemplos...


No Brasil: seqüestro dos símbolos nacionais

Na semana final de 6/2002, a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) apresentou os dados do Primeiro Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas no Brasil. O estudo revela que o álcool é a principal droga consumida pelos brasileiros. O Pais tem o dado alarmante de que 11,2% da população é dependente do álcool. Essa pesquisa deixa clara a importância de o Brasil ter uma política mais definida sobre essa droga, como destaca o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Os últimos anos de propaganda intensiva visando o público jovem contribuem para esse índice de população dependente do álcool. Dois aspectos dessa propaganda chamam atenção. Um deles é a agressiva utilização da sexualidade nas propagandas, especialmente no caso da cerveja. "É importante notar que o código do Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar - instituição representante do setor publicitário), que determina regras para a propaganda de todos os produtos, deixa claro que a propaganda de álcool não deve ser associada à sexualidade. Claramente, a indústria de propaganda de álcool está desrespeitando seu próprio código", destacam os pesquisadores.
Ainda mais importante do que esse uso agressivo de sexualidade, é o uso do Brasil e de símbolos nacionais para a venda de álcool. O exemplo mais evidente dessa técnica vem novamente da indústria de cerveja. Responsável por 85% das bebidas alcoólicas consumidas no Brasil, a indústria faz um verdadeiro lobby para disfarçar a cerveja de bebida não-alcoólica, escapando, assim, das parcas proibições existentes em relação à propaganda de álcool, representando o exemplo mais escrachado e vergonhoso nesse sentido.
Dois exemplos servem para ilustrar a forma vergonhosa como a indústria de bebidas trata esta questão. A tartaruga de uma das marcas de cerveja é bem feita e bonitinha, mas sua denominação como "a torcedora-símbolo da seleção brasileira" é um insulto à população brasileira. O artista famoso que coloca a sua imagem para vender a idéia de que o consumo de uma cerveja faz com que a evolução de um jogo de futebol torne-se favorável é uma das maiores perversões do uso da credibilidade de uma figura pública para influenciar os jovens.
O principal fator que torna campanhas como essa danosas para a saúde pública é que, ao serem exibidas num momento em que a grande maioria da população brasileira assiste televisão, vai, com certeza, minar os esforços na prevenção de drogas nos próximos anos, porque a maioria das crianças brasileiras foi bombardeada com mensagens favorável ao consumo de substâncias como uma forma de melhorar a sua vida.
Esse tipo de associação das bebidas alcoólicas com o que há de mais característico no Brasil, uma vez mais normatiza o álcool. Em especial, esse é mais um exemplo de como a propaganda do álcool mostra apenas uma face do uso do álcool, esquecendo ou associando a uma minoria de "pessoas problemáticas" sua importante contribuição para a morbidade, mortalidade e prejuízos sociais, inclusive no que se refere a criar um ambiente hostil e ridicularizador às mensagens e medidas de saúde pública.
Dessa maneira, e seguindo orientações da OMS, os pesquisadores sugerem que a propaganda de álcool (incluindo-se aí a cerveja e o vinho, atualmente desobrigadas da restrição de horário na televisão aplicada às outras bebidas alcoólicas) tenha o mesmo tipo de tratamento que recebe atualmente a propaganda do cigarro no Brasil. Essa restrição também deve se estender a eventos patrocinados pela indústria do álcool, especialmente os culturais e esportivos associados aos jovens.
Os números de problemas associados ao álcool no Brasil não deixam dúvida quanto ao potencial devastador deste, principalmente junto aos jovens. As propagandas e a mercadologia das bebidas alcoólicas no Brasil são parte integrante da criação de um clima normatizador, associando-as exclusivamente a momentos gloriosos, à sexualidade e a ser brasileiro, esquecendo-se dos problemas associados. A indústria do álcool e da propaganda no Brasil não está, nem de longe, desempenhando um papel responsável nessa situação. Medidas claras devem ser tomadas para lidar com esse importante problema de saúde pública.
O estudo é assinado pela Associação Brasileira do Estudo do Álcool e outras drogas (ABEAD), pela Associação Médica Brasileira (AMB), pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) e pelo Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria.










Propaganda da cerveja Brahma na TV em 30/6/2002: tartaruga torcedora é simpática, mas passa péssimos exemplos...






Críticas também na Internet



Outros maus exemplos dados pelos meios de comunicação estão sendo destacados em mensagens divulgadas através das listas de debates na Internet. Novo Milênio recebeu esta, repassada pelo economista José Pascoal Vaz, em 26/6/2002:
Amigos:
O garoto que escreveu o texto abaixo tem toda razão: que Brasil queremos? Poderíamos acrescentar ao texto acima a contribuição valiosa de Pedro Bial, da TV Globo, logo ao final do primeiro jogo Brasil x Turquia. Referindo-se ao gol que marcamos de pênalti (que para a quase totalidade das pessoas não existiu), Bial fala, com um largo sorriso, para dezenas de milhões de brasileiros: "é, gol roubado é mais gostoso!". A velha lei de Gerson continua em pleno vigor. Depois, pede-se solidariedade!

Abraços, Pascoal.


CUIDADO COM O MAU EXEMPLO
Sou um garoto de 11 anos, animadão com a Copa e não perco nenhum jogo. Sempre atento à TV, sou naturalmente bombardeado o tempo todo com toques, sugestões e propagandas, mas nem percebo a influência que estas mensagens poderão ter na minha formação.
Seguem-se os eventos e, de repente, um dos meus ídolos, o Rivaldo, executa a mais grotesca interpretação teatral possível, fingindo receber uma bolada na cara e se jogando no chão diante de centenas de milhões de espectadores, quando na verdade a bola simplesmente lhe pegou na perna.
Não entendo direito aquilo e vou em frente.
Nos comerciais, logo a seguir, vejo um anúncio que é a segunda ou terceira peça da campanha publicitária de uma marca de guaraná.
É o Guga Kuerten vendo um menino com dificuldades na máquina de moedinhas e dando uma raquetada certeira, de modo que a bola atinge o botão liberando um monte de latas geladas, quando o garoto botou apenas uma moeda.
Não satisfeito, o garoto do anúncio sugere ao Guga que use o mesmo truque da bolada num caixa eletrônico de banco. Guga diz não. Mas peraí: é uma coisa bacana aplicar truques para roubar dinheiro de uma máquina dessas?
Bem, sei lá. Segue a TV.

Nos dois blocos comerciais seguintes, duas propagandas com aquela tartaruguinha esperta, a da cerveja.
Na primeira, ela induz um cozinheiro chinês a jogar uma faca para o alto e recebê-la cravada na nuca. Na segunda, a tartaruga está numa arquibancada, com um torcedor à sua frente. Este, ao comemorar um gol, levanta os braços com a latinha de cerveja. A tartaruga simplesmente rouba a lata do cara e bebe sua cerveja.
Tudo bem, eu quero mesmo é ver o jogão. Mas e aí: se depois eu virar um pilantra quando crescer, será que vou me lembrar dos valiosos exemplos que tive, vendo TV quando era garoto?
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Outra crítica ácida de diversos internautas é sobre a forma como o programa humorístico Casseta e Planeta, da Rede Globo de Televisão, por diversas vezes ridiculariza os hinos nacionais dos países participantes da Copa do Mundo, alterando suas letras enquanto exibe a imagem dos jogadores cantando seus hinos antes de cada jogo.
Entendem muitos internautas - e Novo Milênio concorda com eles - que há formas bem mais divertidas de brincar com os outros times, sem desrespeitar o que cada povo considera como seu símbolo nacional:

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